quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Corpos suados.

Pra lá e pra cá passam os namorados.
Mãos carinhosas passam uns nos outros.
Bocas em toques, gosto marcado.
Pra lá e pra cá línguas e lábios.

Pensei que fosse amor,
mas eram apenas corpos suados.

Quanto desejo,
dizia Nietzsche, pelo desejo.
Mais que pelo desejado.

[Thom Albuquerque]

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Súbito fim.

Pare de me olhar como quem atenta ao fim.
Um súbito fim é o que todos desejamos.
Já que loucura seria desejar a eternidade,
só nos resta fantasiar tais fins.

Paira sobre mim, brisa mortal,
com seu cajado assassino.
Paira sobre mim, velho menino, infeliz
infelicidade imortal.

Um súbito fim é o que todos desejamos.
Isso também fala sobre mim.

Pragas, pestes, matadores...
Da morte senhores são, devastadores.
Da morte senhores sãos, criadores.
Da morte senhores vãos, pecadores.

Desejo do meu corpo brota sem espinhos.
Os tabus do meu caminho
caço, açoito, mato, como...

Luxúria há em mim e me escorre
pelos dedos pelos tenho de horror.

Suor que mata
a sede mata
o amor... Matou.

Teu toque faz de mim instrumento
do teu ardor com meu sabor fora e dentro.
Meu toque faz de ti pensamento
selvagem passa na mente sedento.

Do chão nasceu nosso altar
vai voar contra o vento.

No céu um gosto de língua vive
e vai lapidando, insano libido.
Súbito fim vai chegar.

[Thom Albuquerque]

domingo, 16 de agosto de 2009

Corsário.

Meu coração tropical está coberto de neve, mas
Ferve em seu cofre gelado
E à voz vibra e a mão escreve: mar
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz

As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais
Roserais nova granada de espanha
Por você eu teu corsário preso
Vou partir na geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar procurar o mar

Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Com as garrafas de náufragos
E as rosas partindo o ar
Nova granada de espanha
E as rosas partindo o ar

[João Bosco e Aldir Blanc]

Anjo de neve.

Caídas aos meus pés
tristes marcas da solidão.
Nações pobres.
Maçãs podres.

Apenas eu
e o que me há de ruim.

Eu sofro a perda de um amor
que se foi direto à distante morada
do inexistencial.

Suas asas de anjo brancas,
manchadas de desejo,
desfizeram-se diante de mim
pra que eu pudesse entender
a razão de tal fim.

Mas,
e quanto a mim,
por que haver?

Eu sofro a perda de um alguém
que não morreu mas já não vive.
Perdeu-se no mar
entre uma lágrima
e outra...

Seus olhos de fogo,
em faíscas de dor,
tombaram diante de mim
pra que eu pudesse me culpar

Por me iludir que
tão branca neve
ao fogo não cederia.

Mas,
e quanto a mim,
pra quê haver?

Eu sofro a perda de um lar
que nunca me habitou.

[Thom Albuquerque]


Corpos delibados.

Eu não vivo.
Eu morro todos os dias
de tristes alegrias,
alegrias frias,
falsas alegrias,
alegorias.

Eu não vivo.
Eu morro todos os dias
de tenras nostalgias.

De noite
meus olhos são chuva

sofrida e turva.

Fechados são
de dia.

Eu não canto.
Meu canto tornou-se pranto.
Troquei os acordes dos anjos

por desencantos
sádicos, francos.


Eu não luto.

Já não me cabem lutos.
Delusos deliberados.
Corpos delibados.

Pandemias de um ser apenas.

[Thom Albuquerque]

Por toda eternidade.

"Devemos morrer, mas na hora certa. A morte só não é aterrorizante quando a vida já se consumou.
Já consumou a sua? (...) Aproveitou, ou deixou-se levar por ela?
Você está fora da sua vida... Sofrendo... Por uma vida que nunca teve?
Não posso lhe dizer como viver de outra forma. Viveria segundo o plano de outra pessoa. Mas talvez possa lhe dar um presente. Eu poderia lhe dar um pensamento.
- E se um demônio lhe dissesse que esta vida... Da forma como vive, e viveu no passado... Você teria de vivê-la de novo porém inúmeras vezes mais. Não haverá nada novo nela. Cada dor, cada alegria. cada coisa minúscula ou grandiosa retornaria para você, a mesma sucessão, a mesma sequência várias vezes, como uma ampulheta do tempo. Imagine o infinito. Considere a possibilidade de que cada ato que escolher, escolherá para sempre. Então, toda vida não-vivida permaneceria dentro de você. Não-vivida. Por toda eternidade."

[Nietzsche]

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Os ombros de uma mulher, segundo o diabo...

"Os ombros de uma mulher são a linha de frente do seu encanto. E seu pescoço, se ela está viva, tem todo o mistério de uma fronteira. Uma terra de ninguém nessa guerra entre a mente e o corpo."

[Diabo, personagem de Al Pacino, no filme O Advogado do Diabo]

Lenda em vida

"O homem que tem uma lenda em vida é conduzindo por sua lenda. Começa com ingenuidade, inocência e termina com embaraços de todo tipo. E para suprir o poder divino que lhe falta... livra-se dos embaraços por meios desesperados."

[Vitor Hugo]

Personalidade Einstein

"Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Por que assim ele se tornará uma máquina humana, e não uma personalidade".


[Palavras de Albert Einstein]


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Malabaristas do sinal vermelho

Daqui de cima da laje
Se vê a cidade
Como quem vê por um vidro
O que escapa da mão

Uns exilados de um lado
Da realidade
Outros reféns sem resgate
Da própria tensão

Quando de noite as pupilas
Da pedra dilatam
Os anjos partem armados
Em bondes do mal

Penso naqueles que rezam
E nesses que matam
Deus e o diabo disputam
A terra do sal

Penso nos malabaristas
Do sinal vermelho
Que nos vidros fechados dos carros
Descobrem quem são

Uns, justiceiros, reclamam
O seu quinhão
Outros pagam com a vida
Sua porção

Todos são excluídos
Na grande cidade

[Composição de João Bosco & Francisco Bosco]

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Indústria da fé.

Centro de poder aquisitivo
Antro de ilusões apoteóticas
Padres por trás de fraudes
Pastores estupradores.

Pague o que puder
ou o que for preciso
pra que a sua vida
continue sendo controlada.

Pague o que puder
ou o que for preciso
pra que sua mente
continue sendo enganada.

Enriqueça ao seu senhor
como sinal de sua fé

Enriqueça ao seu senhor
com suas cédulas em louvor.

[Thom Albuquerque]

Lógica

O que vai ser
se eu não souber
passar à frente a mão
nem reabrir estradas?

Vou me esconder atrás da luta prostituta
e argumentar contra a paz
vou escapar pela luzinha da fechadura
e levar todos os segredos

Vou deitar com a sorte
conhecer seu corpo
e abandoná-la na primeira esquina
cheia de filhos

Vou apertar o dedo no botão
e fazer tudo virar fumaça
mas não vou ter tempo
de chorar
pelos desaparecidos.

[Raimundo Sodré]

Yeat


"Voando e voando no círculo que se alarga
o falcão não pode ouvir o falcoeiro.
Coisas que se desmancham...
O centro não pode sustentar-se.
Mera anarquia está à solta pelo mundo.
A maré, manchada de sangue,
está à solta.
E em todo lugar,
a cerimônia da inocência está afogada."

[Yeat]