sábado, 19 de setembro de 2009

Por Narciso.

Dobra tuas pálpebras de Narciso...
(Disse-me o espelho)
Não vê que não mudas?
Tens sempre a mesma cara de vencido,
mesmo que venças.

Sempre o mesmo olhar mendigo.
Sempre este riso enfadonho... Ator.

Tira do teu rosto esse pesar de bandido.
Finge uma nova postura,
uma nova personagem qualquer...

Ou,
se preferires,
sê tu mesmo
personagem da tua história.

Vira a página.

Que o autor possa, dessa vez,
parir um mocinho.
Ou, quem sabe, um herói.

Vai,
transforma em troféu toda essa dor
expressa no teu rosto.

Na alvorada do teu ser
há um campo florido
germinando um novo amanhecer.

[Thom Albuquerque]

Lua de Féu.

"Nada jamais superou o êxtase daquele primeiro despertar.
Eu podia ser Adão com o gosto da maçã ainda fresco na boca.
Uma forma feminina incorporava toda a beleza do mundo...
E eu soube, com cega certeza, que era isso mesmo."

[Do filme "Lua de féu", de Roman Polanski].

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Crianças suicidas.

Despencam dos meus olhos
rios oriundos do mal.
Do sal, o gosto do meu desgosto.
No meu sorriso, um contraposto.

Despencam dos meus olhos

estacas de marfim.
Do fim brotaram flores
ensanguentadas, desamores.

Atadas,

minhas mãos,
cortadas.

Despencam dos meus olhos

crianças suicidas.
Da vida, cobaias... Lacaias.

Espúrios desatinos

controlam vidas de meninos
como eu, assim,
insanos.

[Thom Albuquerque]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sentidos.

Há uma bolha que cresce
no centro do mundo
numa espiral violenta
de destruição.

Vem corroendo raízes
num fascínio mudo.
A cada dia que passa
uma nova erosão.

Esteve, durante milênios,
num sono profundo.
Agora vem, despertada
por tal sensação.

Bocas seladas num beijo.
Desejo desnudo.
Bomba-relógio implodindo
no meu coração.

[Thom Albuquerque]


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Por entre tuas pernas

O meu desejo viaja sobre o teu corpo.
Reflete-se em teus olhos.
Bebe da tua saliva.

Repousa sobre o teu colo,
cama de fogo.
Teus seios,
nuvens de algodão doce.

O meu desejo te devora por inteira.
Te respira e te sufoca.
Te desperta e te esgota.

Nasce no teu sorriso
e por ele morre.
Esconde-se por entre tuas pernas
e por elas escorre.

[Thom Albuquerque]