quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Bichos sem coração.

Não vou viver o espasmo noturno
de uma transa fria pensando em você,
Nem vou querer ser dos céus um rascunho
beato e satânico de um só ser.

Não quero crer no que o mundo oferece,
ser um rato inerte sem consolação,
Viver somente de restos intrépidos,
fétidos, pútridos... Em comunhão.

E não me diga, meu bem,
que você vai me amar,
por que não acredito em amor
entre dois bichos sem coração.

Dentro do meu universo secreto
eu me escondo do seu julgamento moral.
Como um gatilho esperando uma ordem
eu sofro calado ao vazio matinal.

E você pode cuspir em meu rosto
todo seu veneno, que não me faz mal.
Pode pisar no meu corpo, abusar do meu gosto
e fazer de mim seu serviçal...

Mas não me diga, meu bem,
que você vai me amar,
por que não acredito em amor
entre dois bichos sem coração.

(Thom Albuquerque)
Em 08/09/2011, Fortaleza-Ceará.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Triste devir.

Meus pés,
que outrora te seguiam,
seguem livres,

Rumam felizes
pra longe de ti.

Meus braços,
que contigo sonhavam,
dormem vazios,

Frios em segredo
tentam sorrir.

Meu rosto,
que te admirava,
Sofre escondido,

É meu assassino,
triste devir.

Soneto Cuspido.

Guardo, estático, um riso nostálgico.
Do calor da tua pele branca
guardo em mim, no âmbito
dos meus dedos, um sabor almático

da tua língua tímida. Guardo também
a lembrança dos rios, do cheiro
fervente das barracas típicas,
das mangas cadentes da minha Belém.

Da Belém que me amara com tanta beleza
que me beijava os pés mas me cuspia
na cara, debochada, toda minha alegria

que agora defendo, em minha Fortaleza,
do frio da noite e da inveja do dia,
do cuspe da vida que, morto, vivia.

(Fortaleza, 27/06/2011.)

Sempre em mim.

Pétala charmosa do meu delírio,
Alma penosa em meu peito sofrido,
Mística beleza nua e crua,
Estaca prateada da fúria divina,
Lúpulo celeste do meu encanto,
Atriz encarnada do meu desejo,
Suco de amoras nos meus lábios sedentos,
União perversa das minhas intenções,
Zaratustra em ascensão constante,
Abutre espreitando meus sonhos egocêntricos,
Nuance brilhante da minha retina,
Estrela cadente teleguiada por Satan,
Serpente amorosa envolta em veneno,
Onça carente no sulcro da noite,
Ulcera cancerosa da minha virilha,
Zeus, Afrodite, Eros, Dionísio...
Abeas Corpus da minha solidão,
Libertina vontade submissa e febril,
Orbital pensamento crônico compulsivo,
Biblioteca pornográfica em chamas,
Oitava maravilha internacional,
Sangue escorrido do meu martírio,
Eterno devir dos meus pesares,
Musical desembestado em Mi menor,
Puta infame do meu deleite,
Riso infanto incontrolável,
Ermético amanhecer embriagado,
Efêmero ser do meu contentamento,
Moléstia da minha modéstia,
Mitológica expressão do meu suor,
Idioma corporal pecaminoso,
Minha própria existência.

Conversa com Vinícius.


(Inspirado nas obras "Ilha do governador" e "ausência", do grande Vinicius de Moraes).

Sim, meu Vinicius,
ela tem os olhos de Susana e os seios de Eli,
tem o olhar de Clara e o beijo de Carmem.
E a presença dela é qualquer coisa como a luz e a vida.

E também sinto que em meu gesto existe o gesto dela,
assim como em minha voz existe a voz dela.

Mas quero tê-la mesmo que, em meu ser, tudo se termine.
Quero colhê-la às claras,
beijá-la, possuí-la por inteiro...

E se, por ventura, ela não me quiser,
que a dor me extermine.
Quero morrer aos poucos, pois
sem tê-la, o universo é um cativeiro!

(Fortaleza, 27/06/2011).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cântico dos abandonados.

Esta é uma homenagem aos desprovidos
de sonhos, de amor, de vontade...

Ąos tristes insensatos, estes
que choram as dores dos outros.
Largados pelo próprio desleixo...

Quão tristes os insensatos!

Salve as almas que rumam
Permanecendo estagnadas.
Sofrem caladas, almas roubadas.

Salve o desejo dos puros
que de impurezas fogem.
Salve a beleza dos anjos.

Salve o segredo das virgens
que sonham com príncipes a galope.
Salve a beleza dos anjos.

Esta é uma homenagem aos desgraçados
Pela ganância dos homens.

Ąos lobos solitários,
de suas matilhas, exilados.
Largados no frio de seus erros.

Quão solitários!

Salve Rômulo de Remo,
Salve Caim de Ąbel,
Salve-me dos olhos dela.

Salve a herança dos cultos...
Historiadores de seus umbigos.
Salve-me dos olhos dela!

[Poema sem nome]

Perfuram-me por dentro
Lágrimas de fogo.
Nos olhos, candelabros
Marcam-me feito um bicho

Em açoite... Domado.

São feridas abertas
Meus dois olhos tristonhos
São cachoeiras,
Ąbismos medonhos.

Sinto-me selvagem,
Coração solto, endiabrado...
Feito um olho cego,
Pela cegueira, apaixonado.

Por Jaynne.

Dominada pela ânsia, minha boca te deseja...
Percorrendo teu corpo em devaneios.
Tamanha aflição expressam minhas mãos.
Sonham atormentadas pela perfeição dos teus seios.

Os olhos que em mim te esperam
Estão fechados... Ądormecidos... Ącalentados...
O suór que em mim te aguarda
Está cansado... Enaltecido... Embreagado...

Minha vida é uma bola de sorvete
Esparramada no teu corpo...
Corrompida pelo teu gosto.

Ą solidão que me acompanha ferve,
dói na pele, é febre, é quase desamor.
É um desafeto tão incerto quanto os céus
E suas nuvens carregadas com toda essa imundície.

Eu sou o teu orvalho,
Qual a saliva que te banha,
Linda felina... Pequena Ąfrodite...
Eu sou a sombra dos teus passos.