segunda-feira, 4 de julho de 2011

Triste devir.

Meus pés,
que outrora te seguiam,
seguem livres,

Rumam felizes
pra longe de ti.

Meus braços,
que contigo sonhavam,
dormem vazios,

Frios em segredo
tentam sorrir.

Meu rosto,
que te admirava,
Sofre escondido,

É meu assassino,
triste devir.

Soneto Cuspido.

Guardo, estático, um riso nostálgico.
Do calor da tua pele branca
guardo em mim, no âmbito
dos meus dedos, um sabor almático

da tua língua tímida. Guardo também
a lembrança dos rios, do cheiro
fervente das barracas típicas,
das mangas cadentes da minha Belém.

Da Belém que me amara com tanta beleza
que me beijava os pés mas me cuspia
na cara, debochada, toda minha alegria

que agora defendo, em minha Fortaleza,
do frio da noite e da inveja do dia,
do cuspe da vida que, morto, vivia.

(Fortaleza, 27/06/2011.)

Sempre em mim.

Pétala charmosa do meu delírio,
Alma penosa em meu peito sofrido,
Mística beleza nua e crua,
Estaca prateada da fúria divina,
Lúpulo celeste do meu encanto,
Atriz encarnada do meu desejo,
Suco de amoras nos meus lábios sedentos,
União perversa das minhas intenções,
Zaratustra em ascensão constante,
Abutre espreitando meus sonhos egocêntricos,
Nuance brilhante da minha retina,
Estrela cadente teleguiada por Satan,
Serpente amorosa envolta em veneno,
Onça carente no sulcro da noite,
Ulcera cancerosa da minha virilha,
Zeus, Afrodite, Eros, Dionísio...
Abeas Corpus da minha solidão,
Libertina vontade submissa e febril,
Orbital pensamento crônico compulsivo,
Biblioteca pornográfica em chamas,
Oitava maravilha internacional,
Sangue escorrido do meu martírio,
Eterno devir dos meus pesares,
Musical desembestado em Mi menor,
Puta infame do meu deleite,
Riso infanto incontrolável,
Ermético amanhecer embriagado,
Efêmero ser do meu contentamento,
Moléstia da minha modéstia,
Mitológica expressão do meu suor,
Idioma corporal pecaminoso,
Minha própria existência.

Conversa com Vinícius.


(Inspirado nas obras "Ilha do governador" e "ausência", do grande Vinicius de Moraes).

Sim, meu Vinicius,
ela tem os olhos de Susana e os seios de Eli,
tem o olhar de Clara e o beijo de Carmem.
E a presença dela é qualquer coisa como a luz e a vida.

E também sinto que em meu gesto existe o gesto dela,
assim como em minha voz existe a voz dela.

Mas quero tê-la mesmo que, em meu ser, tudo se termine.
Quero colhê-la às claras,
beijá-la, possuí-la por inteiro...

E se, por ventura, ela não me quiser,
que a dor me extermine.
Quero morrer aos poucos, pois
sem tê-la, o universo é um cativeiro!

(Fortaleza, 27/06/2011).